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Escrita por Thyago Jesus.
DESEJO & CASTIDADE
Capítulo #002:
Tentação
Não tendo nada de tão importante pra fazer em casa, concordei em ficar, enquanto meus amigos foram em bora. Meus pais não se incomodariam, afinal eu estaria na companhia do padre Quintiliano e não em uma festa com bebidas e música profanas, coisas que eles abominavam veementemente.
Enquanto estivessem no comando da paróquia, a casa dos padres era um imóvel modesto colado com a igreja – separadas apenas por uma porta. E lá estava eu sentado no sofá da casa do padre Quintiliano, vendo um filme religioso num canal católico. Ele saiu do quarto apenas de toalha e aquela imagem mexeu comigo de uma forma até então esquisita, pois tudo o que sentia era semelhante ao que meu corpo vivenciava nas noites de pecado na frente do computador. Fiquei paralisado perante a imagem do corpo juvenil e atraente do padre. É certo que eu não era imune ao efeito da beleza dele. Em muitas missas eu ficava hipnotizado e perdido naqueles olhos, pensando em como ele era agradável, carinhoso, bonito – sim, bonito – mas nunca pensei que isso fosse desejo carnal; imaginava que era pura admiração.
Sim, eu sempre me senti atraído por meninos e, como todo religioso, achava que era tentação de Satanás, e que me livraria disso em breve. No entanto, quanto mais eu reprimia esse desejo dentro de mim, mais escravo eu era dele, mais submisso ao arrepio e ao calor da noite eu me tornava – e lá estava eu no computador vendo homens transando com homens por toda a madrugada. Era por isso que eu rezava.
Fechei meus olhos. Abri. Ele ainda estava lá, de toalha, de pé na porta do quarto, tão paralisado quanto eu, pensando em sabe-se lá o quê. Aquilo não estava normal, algo naquele ambiente ardia feito fogo, queimava feito brasa e meus olhos só miravam aquela barriga sem nenhum pelo, aqueles braços fortes, o umbigo... Meu olhos queriam enxergar além da toalha, minha visão mirava bem abaixo do umbigo. Nossos olhos se encontraram e corei. Eu tremia por dentro, por fora. Ele me olhava fixamente, também traído por seus instintos. O que estava acontecendo ali? Olhei para uma imagem de Cristo crucificado e levantei. Precisava sair. Aquilo não era certo. Eu estava desejando o padre, o servo do Senhor.
Já estava abrindo a porta que dava acesso á rua, quando senti aquele corpo atrás de mim, colado ao meu. Enquanto segurava minha mão pra me impedir de abrir a porta, passava o nariz em meu orelha e sussurrava:
– Não vá, Samuel, não vá. Fica mais um pouco.
Minha razão havia ido em bora primeiro que eu e meu corpo só queria ficar. Eu já estava excitado e percebi que ele também estava. Meu corpo inteiro era suor e arrepio enquanto eu sentia sua respiração em minha nuca, sua boca mordendo minha orelha, sua ereção encostando em minhas costas. Ele respirava ofegante e continuava a sussurrar:
– Ninguém vai saber... – já chupava meu pescoço – Vem, Samuca, vamos fechar essa porta.
– NÃO! – foi o que eu consegui gritar, sem saber de onde tirei força e lucidez o suficiente para produzir essa recusa.
Saí correndo dali, peguei minha bicicleta e pedalei muito rápido até minha casa. Entrei ofegante, tão sem fôlego, que meus pais estranharam. Do sofá, olharam pra mim assustados.
– O que foi, menino? Parece que viu assombração! – meu pai foi o primeiro a se manifestar.
E eu, encostado na porta, só respirava rapidamente.
– Samuel, aconteceu alguma coisa? Desse jeito você nos preocupa, meu filho. – disse minha mãe, visivelmente preocupada.
Consegui inventar uma desculpa qualquer sobre achar que estava sendo perseguido por um carro e segui pro meu quarto. Apaguei as luzes, deitei e fui pra debaixo das cobertas: era eu e as lembranças de minutos atrás, eu querendo dormir pra esquecer tudo aquilo, mas meu corpo, como que em febre latejante, queimando de tanto desejo, insistia em lembrar cada toque daquele corpo jovem que estava separado do meu por apenas uma toalha, uma fina toalha.
Nada de sono. Precisava tomar um banho. E foi o que fiz, lutando veementemente contra aquelas imagens que me deixavam excitado enquanto eu me ensaboava e me tocava. Não iria me masturbar – era questão de honra resistir àquele pecado. Talvez assim eu fosse reconhecido por minha luta contra minha carne e garantisse minha morada no Céu. Não me masturbei.
Na manhã seguinte, caminhava desconfiado pela escola, como se cada colega, professor ou funcionário pudesse ver além da minha inquietude, como se estivesse estampado na minha cara que eu, o coroinha mais perfeito da região, o bom filho, o bom exemplo, andei pecando com o padre Quintiliano – o próprio anjo na Terra. Tão grande era minha preocupação, que eu andava distraído pelos corredores. Cecília, que estava sentada na mureta, percebeu e logo me gritou:
– Ei, Samuca, perdeu algo? Tá procurando por alguma coisa?
– Não, por quê?
– Sei lá, tu tá meio estranho, lento, como quem perdeu algo.
– Na verdade, perdi mesmo...
– O quê? Eu te ajudo a procurar..
– Meu juí... Quer saber? Deixa pra lá.
– Hã? Eu, hein. Cê tá estranho mesmo... Não quer falar tudo bem. Vamos mudar de assunto, então.
– Impressão sua.
– Padre Quintiliano mandou avisar que quer ver eu, você e o Zé Artur hoje lá na igreja de novo, lá pras 7 da noite.
Foi tão visível o choque que tomei ao ouvir o nome do padre, que Cecília novamente perguntou se eu estava bem. Depois de recuperado do susto, confirmei que iria sim.
– Deve ser pra conversar sobre os novos cânticos do coral – disse Cecília.
Aceitei ir sem hesitar, pois devia prestar contas à minha consciência. Afinal, seria só uma reunião qualquer, como qualquer outra, com o Zé Artur e a Cecília lá, sem risco. Se ele tentasse me convencer a ficar lá sozinho de novo, me negaria e ponto. Tudo decidido. Era só eu resistir e provar pra mim mesmo que sou maior que esses pecados, que essas investidas de Satanás na vida de um pobre cristão.
– Então até mais tarde. Vou pra aula agora. – falou Cecília enquanto me abraçava.
Seu abraço era tão terno e aconchegante, que eu pensei em como tudo seria mais fácil se eu pudesse amá-la da mesma forma que ela me ama.
– O casalzinho tá firme, hein. – nos surpreendeu Zé Artur, com seu tom sutil de inveja.
Cecilia se limitou a abrir um sorriso forçado pra ele e logo após ir pra sala de aula. Ficamos eu e Artur sentados na mureta, conversando trivialidades.
Enfim chegou a noite e lá estávamos os quatro sentados de novo piso gelado da sacristia, com nossas vozes ecoando pelas paredes de azulejo com imagens de passagens dais Bíblia: tinha a Arca de Noé, Moisés abrindo o Mar Vermelho, a Santa Ceia, toda sorte de anjos... Tudo contrastando com o jogo de olhares incisivos e ardentes que o padre me lançava.
É incrível como somos escravos da nossa carne. Não pude resistir àqueles olhos me fitando durante a reunião e não tive outra alternativa a não ser ficar e esperar “outro telefonema do bispo” na casa do padre. Dessa vez ele estava mais sério, tão pensativo como eu, mas nem assim deixava de ser atraente – atração essa que me foi despertada na noite anterior. Sentados lado a lado no sofá, sem saber o que dizer, sem nem conseguir olhar um na cara do outro, só sentindo um desejo que só faltava explodir. Como fui inocente em acreditar que conseguiria negar o pedido de ficar na casa do padre Quintiliano.
– Sabe, Samuel, - enfim ele quebrou o silêncio – não pense que tudo isso não me perturbou também. Eu sei que eu não deve...
– É melhor não acontecer nada, pois você é o padre, eu o coroinha, a gente vai pro in...
– Espera, deixa eu terminar. Então, como eu ia dizendo, eu sei que eu não deveria ter ido tão rápido, eu sei que me precipitei. Corri um grande risco de você ter me denunciado, mas, me desculpa se eu parecer inconveniente, é que achei que talvez você curtisse.
– Costuma fazer isso com outras pessoas?
– Não, não, você foi o primeiro! Olha, Samuel, desde muito cedo, desde quando eu era bem mais novo que você, eu sentia desejo pelos meninos da escola, eu gostava de homem. Escolhi ser padre pra ser perdoado por esses pecados, ou quem sabe até ser curado; mas, agora que atingi um nível razoável de maturidade, percebo que isso é impossível, e eu realmente não sei o que fazer.
– Então você não é um pedófilo?
– Não, meu querido, não. Só sei que há tempos venho te observado e só ontem pude expor tudo o que tava guardado aqui.
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